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  • Renato Negrão

Sobre a polêmica do evento Poesia Irritante do Instituto Moreira Salles.

Atualizado: 17 de Jul de 2019

A missão do IMS, segundo seu site é preservar, difundir e promover o patrimônio cultural brasileiro em quatro áreas: Fotografia, em mais larga escala, Música, Literatura e Iconografia. O Instituto também realiza exposições de artes plásticas e destina uma boa dotação orçamentária ao cinema. Produz a Zum, revista de fotografia, e a Serrote, revista de literatura.

Recentemente uma polêmica. Um evento de literatura tomou as redes sociais por conta da lista de convidados feita pela curadoria em que todos os dezoito convidados são pessoas brancas. Do lado de fora, uma incrível diversidade de poetas e escritores negros atentam para uma fotografia deslocada de uma realidade.


Um marciano vindo hoje de outro planeta e adentrasse no IMS entenderia que este é o quadro monocromático da literatura brasileira. E teria também outros raios X, bastante preocupantes e limitadores para uma instituição que se pretende protagonista em preservar, revelar e difundir o acervo da paisagem cultural do país.


Se este mesmo marciano se dirigisse ao educativo do IMS, como ele seria recebido, por quem? E como seus funcionários e o educativo – estes, representantes da instituição no contato com seu público – responderiam ao que se vê representado nas galerias, nos eventos, nos cartazes? Quem entra em uma instituição afinal, adentra nela e em seu compromisso simbólico. Sua missão.


Sabemos que o processo de invisibilização dos negros e indígenas é projeto histórico e sistemático, para isso se apaga física, econômica e simbolicamente nossa história. Invisibiliza-se para não ver e não deixar que outros vejam até que o invisível se torne inviável. Sabemos também que o moto-continuo das tramas das relações no sistema das artes e da literatura no caso, abre caminho para supor que nem todos os brancos escolhidos tem qualidades literárias acima de outros que lá não estão. Diante desse cenário assistimos a cada 23 minutos o genocídio de um jovem negro no país e vemos também cartazes em que 18 poetas brancos são “o que há de melhor” em um país de maioria negra. O nome disso é racismo.


Ora, a difusão de imagens, sons, o acervo literário e a consequente promoção de eventos culturais e artísticos, ou seja, os modos de representação da paisagem artística contemporânea, interfere no modo como lemos simbolicamente essas representações. Indicam como o IMS promove certos recortes e como eles vão intervir simbolicamente no futuro, a saber, no seu próprio acervo.


Parece haver então uma tensão, contradição ou desvio de sincronia entre o recorte curatorial e o papel que parece ter o IMS de preservar e difundir acervos, através de seus eventos, já que segundo os objetivos disponíveis em seu site diz que “O objetivo fundamental do IMS é difundir esses acervos da maneira mais ampla. Isso requer um ingente trabalho prévio de higienização e digitalização de imagens e sons, e sua melhor catalogação, para servir a exposições e a publicações e atender pesquisadores e outros consulentes”. A menos que eu tenha entendido errado o sentido do termo higienização.


É de interesse da instituição não representar um recorte amplo da paisagem cultural brasileira no campo da literatura? Ou ainda perpetuar modelos fixos de representação em que uns, monocraticamente brancos são fixados como representantes do que há de melhor nesta paisagem – a literária – enquanto outros são simplesmente ignorados? Pois é isso que se vê na curadoria, um cinismo em que, de um lado, a reivindicação de uma autonomia suspensa, que se coloca acima do que diz ser “questões sociais”, ao mesmo tempo que perpetua os mesmos modelos de representação que fixam determinadas categorias, mulheres, negros e indígenas em papeis de incapacidade e subalternidade. Fosse eu gestor do IMS, interviria ou destituiria imediatamente a curadoria, para o bem do compromisso simbólico da instituição. Basta uma curadoria justa para que se tenha negros, indígenas em alta qualidade e quantidade em qualquer curadoria.


Esta história de opressão deve ser revista e reescrita, na prática, por quem a escreveu, as instituições oligárquicas e seus herdeiros privilegiados, a branquitude - e isto eu aprendi em longas conversas com a poeta mineira Mariana de Matos que sustenta essa tese de modo singular. A nós negros e antirracistas cabe fazer ruir essa estrutura. Aos antirracistas brancos, que doa nos seus privilégios. Ou, muito provavelmente o marciano que venha talvez de outro tempo, opte, por percorrer ambientes de outras instituições mais bem preparadas para a diversidade.

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