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  • Renato Negrão

Sobre Odisseia Vácuo, entrevista concedida a André Di Bernardi.

O que diferencia esse seu novo livro de outros projetos, como “Vicente Viciado”?

Acho que refinei a experiência de composição em relação aos poemas do Vicente Viciado, que mantem uma atitude que dialoga com a poesia dos anos 70. A sutileza no humor, compor um poema um pouco mais longo, o que é menos comum na minha produção. No passado era mais nítido um pensamento mais rítmico nos meus textos, hoje identifico uma busca por mais plasticidade. A atitude performativa de buscar uma indissociabilidade entre a fisicalidade do objeto, com o texto e a voz é mais presente no Odisseia Vácuo.

- Em que medida o livro flerta com a poesia concreta?

São raros os de minha geração que não tenham referência minimamente na poesia concreta e em outros movimentos experimentais da poesia brasileira, poema processo, práxis, neoconcretismo e outros trânsitos entre palavra e imagem. Nada é intencional, mas quando vê, o diapasão está presente. Aí é possível criar relações com Galáxias do Haroldo de Campos. A transa semiótica entre os paratextos... O projeto gráfico de uma maneira geral tem certamente referência das leituras do Décio, do Júlio Plaza. A intenção de que o branco da página fosse um elemento ativo dialoga com Mallarmé, mas não é intencional.

O que você diria para o leitor que porventura não conheça a sua obra? Que sugestões você daria para ele adentrar no universo poético do livro?

Eu diria: Venha conhecer! A priori, acredito que um poema ou qualquer objeto artístico pode instigar de modos diferentes pessoas diferentes. E que, portanto, não há porque subestimar qualquer capacidade do fruidor. É o início de um diálogo.

Como surgiu o projeto, a ideia para o livro? Ele demorou para ser produzido?

Demoramos uns oito meses entre o primeiro encontro e o lançamento em São Paulo. Procurei alguém que admirasse, que fosse também um escritor, que fosse rigoroso no capricho, que tivesse referências próximas. E encontrei no Preto Matheus, da SQN edições isso e muito mais, Matheus é preto como eu e isso amplia e redimensiona conceitualmente o projeto de um modo muito mais sutil do que se possa imaginar. Isso adensou também a camada política que o texto contém. Miguel Javaral é um interlocutor atento, amigo antigo, artista sonoro e sócio da editora. Como entusiasta do poema escreveu um artigo para a ABRALIC (associação Brasileira de Literatura Comparada) ano passado. Criou comigo uma performance sonora, tudo em casa, tudo interligado.

- Fale sobre o projeto gráfico do livro

A epígrafe do poeta português Alberto Pimenta, os dados da edição, que são as datas e a numeração acabam aparecendo como um índice enigmático. Não há título e não há o nome da editora e também meu nome não aparece na capa. Dentro do livro aparecem em contraposição dialógica renato/vácuo e negrão/odisseia. A partir do significado do meu nome e sobrenome, Renato = renascido e Negrão = breu, me permiti fabular as relações entre buraco negro e o vácuo quântico. A aventura ínfima das partículas e dos astros e a aventura do signo linguístico.

- Que dificuldades você encontrou na feitura do livro?

Tentei dialogar com outros ótimos editores e dificuldade durou até entender que era com o Preto Matheus que eu tinha que desenvolver o projeto. Depois desse processo, só desafios conceituais e financeiros.

- Em que medida o seu périplo recente pelo Brasil ajudou no surgimento do livro?

O livro já estava pronto quando comecei a viajar, interessante foi perceber a recepção em lugares diferentes do Brasil.

- Como você definiria o termo livro-objeto?

Todo objeto que rompe com a forma tradicional do livro e se abre para relações em que a palavra requisite outros elementos plásticos, sonoros, materiais. Mas não me atenho muito a categorizações rígidas.

Fale um pouco sobre a performance que você vai apresentar no lançamento

A performance com Miguel Javaral – edição sonora - explora o universo da vocalização e do silêncio e convida o expectador a participar como ouvinte de uma leitura em que o desafio é dilatar o tempo da leitura até o limite em que ele, o ouvinte, não se disperse.

Se é que existe, que “mensagem” o livro passa para o leitor?

Um poema que celebra a história e ao mesmo tempo questiona o modo como ela é contada.

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