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  • Renato Negrão

Yesterday eu comi o Morrissey OU MAIS LEGAL QUE UM LIVRO DE POESIA / Por Reuben da Rocha.

Vicente Viciado é um dos livros que mais gostei de ler na vida, depois de poucas

páginas a coleção de “poemas extra & ordinários do poeta Renato Negrão”

já estava acomodada na mesma mochila afetiva em que guardo os toques de William Blake, Jean Genet, Black Alien ou Karina Buhr, altas lições na curtição do voo. Vou colocar desse jeito mesmo, pois o prazer é uma questão séria e (me ensinou uma amiga professora) existem os que gozam e os que levam a sério. Gostar vem primeiro e entender é um prazer de segunda ordem. Antes é o encontro dos sentidos com as interfaces estéticas do mundo, um barato que tem precedência psicofísica sobre a compreensão. Os efeitos vão à frente das formas e nisso ainda há muito o que aprender com as piadas, koans e canções. Seu hábil cálculo, macio e exato como o pulo do gato, aplica “o sutil o mirabolante/ a raiz quadrada o labirinto”, princípio de ação que Vicente Viciado vai buscar noutra arte, o gol de Dadá Maravilha. O curioso caso de um livro de poemas capaz de produzir vínculo, vontade de envolvimento, de dar fácil acesso à alegria exuberante da descoberta.

Claro que Renato Negrão é um artista com ciência de seus meios, a plena posse de suas faculdades expressivas é que tornou possível essa euforia toda. Mas fazer bem é o mínimo, a perfeição é o básico, quem dança sabe que jeito, graça e charme não vêm com disciplina nem desleixo.

Vicente Viciado é um livro cheio de surpresa, mestre em técnicas de estranhamento, mas nunca age pelo choque. Grande parte da arte experimental no século 20 é prisioneira da estridência, que associa ao raro e difícil, aquela conversa de “o signo novo é para poucos” que se tornou dominante. Mas “o crítico choca a si próprio// chocar o ídolo/ é preciso// já ao artista/ chocar não é preciso” – isso aparece por exemplo na sofisticada operação de humor do poema “Chouriço” (“chouriço/ cai pro fundo/ da panela/ depois volta à superfície// endurece/ frita/ quem parte/ leva saudade de alguém”), que aproveita a situação ambígua do verbo partir para alterar de forma abrupta o rumo da imagem. A interrupção de cunho sentimental, assim meio Emilinha Borba, provoca no contexto da deliciosa receita um desvio lógico hilário. Em “Panelaço”, a montagem dos verbetes de dicionário (as definições contrastantes de panelaço/panelinha) cria uma forma expandida de trocadilho. E quando dispõe os significados do segundo termo (“grupo de políticos que/ no poder/ procuram obter/ vantagens/ individuais// grupo literário/ muito fechado e unido/ e dado/ ao elogio recíproco/ súcia/ conluio”) situando os homens de letras entre a reles mesquinhez de grupelho e o crime graúdo dos homens públicos, realça o que eles têm de ridículo e de perigoso.

No poema “Ál/ cool/ & Ai/ ds/ & nen/ h/ uma/ ass/ oci&/ ação/ em/cam/ panh/ as/ pub/ licit/ árias”, a informação pouco difundida e muito útil sim é um signo novo, conteúdo revolucionário fazendo forma. Como também acho radical o poema “Felino” (“é macho/ e é bicha/e gosta de mulher// que é mulher/ e é macho/ e adora homem/ (...) que é homem/ e é mulher/ e gosta de homem// que é homem/ e é homem/ e gosta de traveco/ (...) que é menino/ e é menina/ e gosta de felino”), a identidade sexual estável/de gênero erodida pela ação do verbo ser (comumente o guarda da identidade linguística), que faz passar pelo mesmo corpo, sem conflito, predicados conflitantes.

Estados melífluos de fácil deriva que desequilibram significações dominantes. Afinal não se pode esquecer que existe uma ficção hegemônica, uma persistente alucinação coletiva conhecida como $, e se vacilar o sujeito se vê enredado nos seus esquemas subjetivos altamente pobres, versões customizadas do mesmo enredo descendo reto e reiterado pelas goelas, pelas retinas, sinapses e corações. Esse loop infinito dos estereótipos se faz pela redução das funções imaginativas da espécie, sua capacidade de conceber e colocar em circulação realidades que o modo de vida capitalista soterra, resseca e inclusive plagia. Vicente Viciado vai contra essa normalidade frágil, com a astúcia de cogumelos ocupando o pasto. Por exemplo, no sagaz “Coisinha” a retórica normativa faz um giro até capturar a norma, flagrando junto àquele “que bate/ uma punhetinha todo dia/ e é chamado securinha/ considerado normal/ podendo/ se mamãe descobrir/ e se o vizinho psiquiatra intuir/ ser chamado/ de transtorninho compulsivozinho punhetil” e aquele outro do “transtorno/ da simulação de que caiu/ na teia do homem aranha/ travou luta e resignou-se/ ao estupro do super herói”, junto a esse transtorno e aquele, o terrível “transtorno de quem nunca foi além do papai-mamãe/ transtorno de quem acha que só se pode transar/ de noite e no escuro”.

Amor é ciborgue é delírio ambulatório, problemas mais amplos que os problemas estéticos, e ainda bem que “um louco somente termina no manicômio/ mas se juntam dois no máximo delegacia/ três loucos em crise são crista na praça/ quatro loucos bizarros/convencem mais quatro casais”...

Desde as epígrafes de Paulo Leminski e Paul Feyerabend, que recomendam a fábula e os sentidos levemente desequilibrados, pequenos desajustes verbais vão costurando em Vicente Viciado arapucas contra a realidade – e ao mesmo tempo aquela sensação esquisita de afinal ter um pedaço de realidade ao alcance da mão, como diria o Gato Félix, um refúgio na sombra espasmódica. Os últimos poemas do livro são projéteis de ação, partitura/conceito para performances. Formas estéticas do agir que afirmam que “nossos corpos merecem e podem/ dar respostas mais criativas/ aos textos urbanos para além/ de suas palavras de ordem/ e de consumo”. Ao fazer disponíveis ao leitor os seus roteiros, o poeta, performer e professor Renato Negrão está dando dicas no campo da imaginação prática, das potencias criativas integrais e vivências estéticas autonomistas.

Nesse jogo de apagar distinções pouco complexas em favor da variedade vital da experiência, a leitura termina com a seção Carona, as “4 letras papo reto & sofisticadas do rapper Das Quebradas” que vêm de faixa bônus. As palavras ágeis da mente elétrica de DQ em “Fala Fofoqueira”, “Via Bluetooth”, “Ela Gosta de Dinheiro” e “Biquíni” conversam muito bem com o universo de Vicente Viciado – pelo viés amplo e bem-humorado que dedicam a assuntos pouco abordados em seus respectivos campos de atuação, e pela mobilidade de registro que Negrão detecta no rapper e existe em seu próprio trabalho, e que tanto contribui para arejar a instituição livro. Desse jeito o livro termina se abrindo ao canto, como nos blues de Allen Ginsberg, nos rocks de Júlio Barroso ou nos reggaes de Linton Kwesi Johnson, antes de ouvir as músicas já se fica rimando em voz alta.


Por Reuben da Rocha. Poeta

Publicado na edição Março/abril 2014 Edição nº 1.353 do Suplemento Literário de Minas Gerais/Secretaria de Estado de Cultura.


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